Sobre o evento
Monólogo revive a violência
contra a mulher dos tempos da Inquisição
Atriz Thaís Klarge
interpreta uma cristã-nova prisioneira nas masmorras inquisitoriais em Lisboa,
em texto escrito e dirigido por Ruy Jobim Neto
“Adio, Kerida” é uma antiga
canção medieval de autoria anônima, sempre entoada em ladino (judeu espanhol) e
que dá título ao espetáculo “Breviário: Adio, Kerida”, drama ambientado na
Lisboa do final do século 17, interpretado pela atriz Thaís Klarge, com texto e
direção de Ruy Jobim Neto. A peça, que pré-estreou em novembro de 2025, na sala
Hilda Hilst da SP Escola de Teatro, durante o festival Satyrianas, em São
Paulo, agora chega às salas e aos palcos para ser apresentada a pequenas
plateias em espaços alternativos e intimistas.
Na trama, Isabel, uma
jovem cristã-nova nascida em Pernambuco, está há algum tempo aprisionada nas
masmorras da Inquisição Portuguesa, em Lisboa e se vê às voltas com o rigor e a
violência dessa instituição católica que condenou centenas de milhares de
pessoas ao degredo, ao garrote ou à fogueira por quase três séculos (de 1536 a
1821). Sozinha em sua cela, Isabel precisa entender os motivos pelos quais foi
presa e levada do Brasil a Portugal para ser interrogada e julgada, na desesperada
tentativa de remontar sua vida e encontrar, em suas memórias de moça o momento
em que cometeu o seu grave crime: o de existir.
Escrita em 2024 como
“Adio, Querida” por Ruy Jobim Neto, para a atriz piauiense Nanda Souza, a peça
ganhou, em sua versão paulistana, o prenome “breviário” em homenagem às
criações cênicas do diretor teatral Heron Coelho (encenador de breviários como
“Gota d’Água”, que deu o Prêmio Shell à atriz Georgette Fadel e “Calabar”,
ambos os espetáculos sobre textos de Chico Buarque).
No caso do “Breviário:
Adio, Kerida”, a ideia do autor (que também dirige a montagem) era retratar uma
personagem feminina em seus estertores, numa situação praticamente sem saída,
pois a Inquisição sempre processava seus prisioneiros e jamais os absolvia.
Todos eram condenados, ou à morte ou ao degredo. “Não havia saída para ninguém,
e é isso o que Isabel vai perceber”, destaca o diretor.
Dividindo a cena com a
compositora e multi-instrumentista Dione Soares, que interpreta música ao vivo
no espetáculo, Thaís Klarge dá vida a Isabel com toda a ferocidade, a ironia e
a solidão que a personagem exige, em meio a uma iluminação que busca o
chiaroscuro de fortes contrastes do período barroco, tendo sido concebida pelo experiente
designer Agnaldo Nicoleti, cujo jogo de luz dialoga com Isabel ao longo do
espetáculo, com a sua própria dinâmica e é praticamente outro personagem em
cena.
A preparação corporal das
ações e danças que Thaís Klarge executa em cena passou pela sensibilidade das
ideias, mãos e pés de Rebeca Gequità, uma artista muito atuante no circuito
alternativo da cena paulistana e que, como a intérprete em cena, também dança. O
figurino que Thaís exibe em cena foi concebido pela própria atriz, com retoques
de Rebeca e ambas trouxeram para a cena diversas soluções práticas e simbólicas
que elucidaram momentos, solucionaram pontos sensíveis do texto e deram muita
força à encenação.
A produção do “Breviário:
Adio, Kerida” ficou por conta de Jess Rezende que, inclusive, trouxe para o
espetáculo a criação do figurino que Dione Soares veste ao compor um menestrel
atemporal, enquanto interpreta a partitura musical do espetáculo e entoa, em um
ponto chave do espetáculo, um canto gregoriano.
Com formação em Cinema
pela USP, Ruy Jobim Neto é autor de textos que mergulham em séculos passados
para discutir e buscar porque somos como somos e elucidar o presente
brasileiro, como em suas peças “Do Claustro” (ganhadora do Prêmio
Usiminas/Sinparc 2013 de Melhor Texto, sob a montagem de Fernando Couto e Caio
César em Belo Horizonte) e o monólogo “Maria Vai” (dirigido por Arimatéia
Bispo, para o Cotjoc, de Teresina, Piauí, vencedor de quatro prêmios, entre
eles o Troféu Em Cena de Melhor Texto, em 2024).
O “Breviário: Adio,
Kerida” tem inspiração nos livros da professora Anita Novinsky, da USP que,
tendo sido aluna do historiador Sergio Buarque de Holanda, mergulhou na
História dos cristãos-novos (descendentes de judeus convertidos à força ao
catolicismo em 1497, durante o reino de D. Manuel I), bem como na obra de
Ronaldo Vainfas, professor da UFF de Niterói, grande especialista e autor de
diversos livros sobre a Inquisição no Brasil.
Ficha Técnica:
Dramaturgia e Direção: Ruy Jobim Neto
Atuação: Thaís
Klarge
Música ao vivo:
Dione Soares
Design e
operação de som: Agnaldo Nicoleti
Preparação
corporal e assistência de direção: Rebeca Gequità
Cartaz: Faoza
Fotos: Maggin
Torres
Direção de
produção: Jess Rezende
Dia e horário
Sábado, 23 de maio de 2026 às 20:00
Como chegar
NAP Núcleo de Artes Paulista
Rua Camilo919
Vila Romana, São Paulo - SP
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Organizado por
Ruy Jobim Neto
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